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Imagem de Deus e Diversidade.
A Igreja não se pretende uma realidade absoluta, definitiva em si mesma. Ela não é o Reino de Deus, mas o prepara neste mundo, proclamando a palavra que convida todos a ele e iniciando-o e fazendo-o crescer na vida dos fiéis, pela Graça divina, que nela habita.
A função da Igreja – que inclusive fornece uma das denominações do papa – é ser pontífice, ponte, ligação com o Divino Mistério que se comunica para reunir os homens em comunhão definitiva e plena no amor. A reunião preparatória para esta comunhão total, onde “Deus será tudo em todos” (I Cor 15,28), é a Igreja.
Sendo a Igreja referência para um Outro que não ela mesma, deve discernir, em cada época histórica, como fazer com que a experiência salvífica de Jesus Cristo chegue a todos os seres humanos. Ela não anuncia a si mesma, mas a Cristo; não é juíza dos homens e da História, mas procura discernir os espíritos de cada tempo e escutar em cada época a vontade de Deus que, se está presente de forma definitiva na Revelação da qual ela é portadora, não deixa de ser compreendida sempre de maneira nova e mesmo de crescer, graças à constante inspiração do Espírito, na medida em que outras questões surgem na sociedade humana.
Se é a Deus que a Igreja procura estar sempre cada vez mais unida para discernir os tempos, se ela existe na função de congregar os seres humanos na comunhão divina que um dia se dará de forma plena, é de capital importância a compreensão que a Igreja tem a respeito de Deus.
A princípio, esta afirmação pode parecer a mais óbvia e a que suscita menos problemas de qualquer espécie. Se a Igreja é portadora da Revelação, e nela é Deus quem se dá a conhecer, se o Magistério tem em sua formação anos de Teologia e uma série infindável de cursos e retiros, parece certo que aquilo que a Igreja sabe sobre Deus e proclama é o absolutamente certo.
E o é, desde que estejamos atentos às nuances desta afirmação. Em primeiro lugar, a Revelação não significa um esgotamento do mistério divino, que, então, seria totalmente compreensível ao ser humano. Deus revelou aquilo e tudo aquilo que quis, o necessário para a realização de seu plano de salvação, mas jamais é, e nem será, um objeto do nosso conhecimento como outro qualquer.
Esse caráter dialético de Revelação-Mistério, apesar de se aplicar de maneira plena ao ser divino, pode ser observado também em outras realidades, que talvez nos ajudem a entendê-lo melhor. Pensemos sobre a vida, por exemplo. Nós somos seres viventes, refletimos sobre a vida, podemos fazer afirmações muito acertadas sobre ela. Mas jamais a vida pode ser totalmente definida num conceito. Ela não cabe numa única idéia ou mesmo num conjunto imenso delas. Sempre algo fica de fora, não porque foi esquecido, mas por que não há como dizê-la totalmente. É algo sempre aquém das nossas capacidades. O mesmo pode se dizer sobre tantas outras realidades. Este caráter de mistério presente em todas elas aponta, participa do Mistério último de tudo que chamamos simplesmente de “Deus”.
Portanto, nem a Revelação, nem a Teologia podem esgotar Deus. Já os antigos diziam que os estudos teológicos deveriam ser feitos “de joelho”, ou seja, com a consciência de estarmos diante do insondável mistério divino.
Igualmente importante é compreendermos que mesmo o dado objetivo, o conhecimento real que nos vem pela Revelação divina, não está isento de ser também uma palavra humana, ou melhor, de ser uma experiência do “dar-se” amoroso de Deus que se realiza efetivamente por meio de ações e palavras humanas.
Muitas vezes nós temos a romântica compreensão de que a Revelação significaria um rasgo no humano, uma interrupção que poria no meio da transitoriedade do tempo, das variações da cultura, algo eterno, no sentido em que cada palavra ou compreensão ligada à Revelação não estaria subjugada aos ritmos das palavras humanas, que se fazem e modificam ao longo de um processo. Tendemos a achar que, sendo divina, a Revelação nos chega pronta e definitivamente esclarecida e assim permanece para sempre.
No entanto, Deus, querendo se comunicar aos seres humanos, o faz encarnando-se numa dinâmica tipicamente humana. A Revelação não surge como um dado objetivo que rasga a história em um momento privilegiado, mas é fruto de um longo processo no qual, através dos acontecimentos – desde os mais incríveis aos mais ordinários da vida de um povo –, Deus vai costurando um sentido para tudo e por meio da sua inspiração, permite ao ser humano, compreendê-lo e comunicá-lo de forma fidedigna.
Esta historicidade da Revelação, afirmada pelo Concílio Vaticano II de forma tão clara, é importante porque une dois pólos aparentemente separados: o tempo e a eternidade, o definitivo e o efêmero. E une não de maneira justaposta, superficial, mas faz com que o humano se torne a mediação do divino, até o ponto de, se no pensamento ainda ser possível uma distinção entre ambos, na concretude da vida, jamais. É por isso que olhamos para um judeu do oriente médio que viveu algumas poucas décadas e afirmamos a seu respeito: Deus.
Esta pertença intrínseca do divino ao humano e vice-versa, que faz que chamemos a nossa história de “História da Salvação”, não é algo que está presente só no passado, registrado na Sagrada Escritura, mas é ainda hoje uma realidade. Isso nos obriga, enquanto Igreja, a nos debruçarmos sobre todas as realidades humanas e não só nos perguntar: “Como estas realidades podem ser iluminadas por Deus, pelo evangelho?” mas, também: “O que essas experiências nos falam, nos mostram sobre Deus”?
E aqui nos deparamos com mais um vício mental muito comum no nosso cristianismo. De que maneira algo inédito, pode, de fato, nos dizer também algo novo sobre Deus, sobre a vida? Isto pode acontecer?
Uma primeira, e impensada resposta, seria negativa. Não há nada de novo a respeito de Deus. Tudo que precisamos saber sobre ele se encontra na Revelação e esta está encerrada desde a morte do último apóstolo.
O que caberia às gerações subseqüentes à apostólica seria interpretar as novas questões que surgem e buscar uma resposta na Revelação. E este é de fato o processo que mais ocorre. A Igreja se volta para os princípios fundamentais, as verdades básicas contidas na Revelação tanto escrita quanto oral e procura à luz destas, compreender o que surge de novo.
No entanto, considerando a própria história da Igreja, por exemplo, no que diz respeito aos dogmas, não se pode concluir que esta interpretação do contemporâneo a partir dos dados objetivos já conhecidos da Revelação seja a única forma de crescimento no conteúdo da doutrina.
O teólogo alemão contemporâneo Karl Rahner (1904-1984) explica como pode haver uma verdadeira evolução no dogma cristão, sem ser fruto de uma mera aplicação dos dogmas antigos*.
A explicação que ele nos dá parte de uma comparação entre palavra humana e palavra divina. Quando um homem diz algo, a partir do momento em que é dito, quando a mensagem é ouvida por outros, ele já não tem nenhum poder sobre ela. O que foi dito toma rumos, ganha interpretações que não dependem mais da vontade e não estão de nenhuma forma sobre o domínio deste que disse tal palavra.
Com Deus é diferente. Ele é absolutamente consciente dos rumos que sua palavra toma ao longo da história. A palavra de Deus nunca se fecha, nem é “dita totalmente”. Mas, na medida em que novos contextos a provocam, ela se desdobra em sentidos que, se nem mesmo o hagiógrafo (autor sagrado) poderia sabê-los todos, estes não eram desconhecidos por Deus.
É justamente por isso que a Revelação é sempre contemporânea. Não é uma palavra dirigida a uma época, e sim aos homens, que nunca existem em geral, mas sempre inseridos em contextos específicos de cultura que moldam a maneira como pensam e as experiências que possuem da vida. É sempre aos homens de “hoje” a que Deus se dirige, retirando do baú da Revelação coisas novas e velhas (Mt 13,52 ).
Também as questões que hoje nos afligem e questionam, aquelas mais importantes dos nossos tempos, as mudanças na maneira de sentir e viver provocam a palavra de Deus, tanto para se deixar iluminar por elas, por aquilo que já sabemos dessa palavra divina, quanto para trazer à tona esta palavra divina que até agora estava já comunicada na Revelação, mas não ainda escutada por nós, já que ainda não havíamos formulado a pergunta que a desencadearia. Ao dado da Revelação já presente, mas ainda não conhecido que aflora num determinado contexto cultural, Rahner o chama do dado comunicado virtualmente. Está lá, ainda que precise a compreensão de uma determinada época para chegar até o nosso conhecimento.
Dentre todas as questões presentes em nosso contexto cultural contemporâneo que fazem com que nós cristãos perscrutemos a Revelação à procura de um sentido, está a sexualidade.
Não que em si mesma, ela represente um assunto novo. O próprio Jesus nos evangelhos cita, quando fala sobre a questão do divórcio, o texto do livro do Gênesis (Gn 1), que trata da união do homem e da mulher “em uma só carne”. Há nas cartas paulinas inúmeras orientações para casados, viúvos e celibatários.
Mesmo assim, continuo afirmando que a sexualidade é um dos assuntos mais pungentes para a Igreja hoje. Isto porque a sexualidade ganhou, nos últimos tempos, a partir de uma série de acontecimentos um novo status, sendo o evento-síntese o que se acostumou denominar de “Revolução sexual” nas décadas de sessenta e setenta.
Não é meu interesse, e nem poderia fazê-lo se quiser respeitar o objetivo deste texto, elencar tudo o que mudou na compreensão e na vivência da sexualidade nas últimas décadas. Uma particularmente será enfocada, enquanto é uma nova compreensão sobre uma esfera da sexualidade que até então permanecia marginal, e por isso mesmo, condenada pela sociedade como um todo: a homossexualidade.
Também não é possível aqui neste texto trazer à discussão a polêmica sobre a nomenclatura a respeito das pessoas que desejam/amam pessoas do mesmo sexo. Questões atualíssimas como a transitoriedade dos papéis sexuais, a construção social dos gêneros masculino/feminino, e o reforço da visão dualista-excludente heterossexual/homossexual proporcionada também por alguns discursos produzidos por gays, tudo isto e ainda outras questões são muito importantes, mas não há como desenvolvê-las em todas as matizes necessárias neste espaço.
Portanto quando uso o termo gay me retenho a um mínimo de afirmações sem querer resumi-lo a nada de definitivo que rotule qualquer pessoa. Apenas faço uso do termo porque é necessário utilizar algum. Uso-o aqui para indicar tanto homens quanto mulheres homoafetivos.
Escolho este termo porque, na minha concepção, a sua apropriação pelas pessoas homossexuais serve como ícone das mudanças ocorridas nas últimas décadas em relação à homossexualidade. Isto porque, significando originariamente “alegre”, “feliz” ele mostra uma mudança de atitude, já que, sendo encarada oficialmente como uma patologia, a homossexualidade fazia dos infelizes que a “possuíam” desgraçados. Uso-o também porque é o termo pelo qual as pessoas homossexuais se auto-intitularam. Isto significa que alcançaram um espaço. A partir principalmente da década de sessenta, quando os gays começaram a sair à rua para reivindicar direitos, não só a religião ou a medicina tinham algo a dizer sobre as pessoas homossexuais, mas estas mesmas passaram, de diversas formas, a militar por um espaço social reconhecido. Da luta pelos direitos individuais, passou-se à luta por direitos políticos e a grande visibilidade das organizações e movimentos gays em suas reivindicações possibilitou um outro tratamento a respeito da homossexualidade em muitos contextos. Por exemplo, a retirada da homossexualidade da lista de doenças psíquicas da Organização Mundial da Saúde em 1991. É claro que tais mudanças não ocorreram em todos os lugares e há muito ainda a se fazer em todo o mundo. Basta lembrar os alarmantes índices de assassinatos de homossexuais no Brasil, um dos maiores do mundo.
As mudanças são recentes e ocorreram gradativamente. A legislação demora a reconhecer muitos dos direitos básicos dos cidadãos gays. As conquistas, em geral, se iniciam por meio de decisões judiciais que criam jurisprudência para novos casos semelhantes.
Se na sociedade civil o reconhecimento desta maneira de viver a sexualidade (termo entendido aqui de maneira mais ampla possível) se dá lentamente, o que poderíamos esperar da Igreja?
Em nome da sapientíssima prudência, reconhecemos que é preciso não aderir de maneira apressada a tudo o que surge no mundo. É bem verdade que acreditamos na condução divina da história, na inspiração do Espírito presente de muitas formas e maneiras nos homens e nas mulheres. Sabemos também que, neste campo que é o mundo, o joio e o trigo crescem juntos. Mas será que esta atitude cautelosa justifica uma posição retardatária da Igreja na sociedade? Basta lembramos de quantos discursos condenatórios às inovações surgidas no mundo foram realizados por autoridades eclesiásticas. Quando estas “inovações” se dão no campo da moral sexual então, nem se fala. Para muitos católicos/cristãos todas as questões surgidas com a maior liberdade sexual das últimas décadas, resumem-se simplesmente em uma palavra: “sem-vergonhice”.
Um ponto importante – e que para o católico/cristão que não tenha uma formação mais profunda parece ser definitivo – é a condenação das práticas homossexuais presentes na Sagrada Escritura. Sem me deter na questão que, por si não é difícil, desde que se entenda o que de fato se quer afirmar em tais passagens, é preciso dizer que o próprio contexto cultural da Sagrada Escritura é radicalmente diferente do nosso. E que a “homossexualidade” contemporânea traz elementos bastantes diferentes daquela bíblica, j á que nos encontramos em um momento tão diferente da história.
Num primeiro momento, isto pode parecer uma tentativa de “enfraquecer” a Palavra de Deus, no sentido de uma distorção a favor de uma ideologia gay. Mas, se assim fosse, este diagnóstico deveria também ser estendido à outras condenações bíblicas que hoje são interpretadas como importantes para aquele contexto histórico-cultural específico tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, como a proibição de comer carne de porco ou o uso obrigatório do véu pelas mulheres nas assembléias, respectivamente.
A cultura bíblica entendia a humanidade como naturalmente heterossexual, de tal modo que a prática homossexual era um desvio, uma perversão, e não uma orientação involuntária nas pessoas. Dir-se-á que a posição da Igreja concorda então com a cosmovisão bíblica e, de fato, assim é. No entanto, os hagiógrafos não tinham acesso aos dados que hoje temos em relação à sexualidade humana. Eles nunca reconheceram a homossexualidade como algo não-escolhido, como já faz a Igreja, ainda que, apesar disto, não tire todas as conclusões desta premissa, condenando ainda a prática homossexual como pecaminosa.
É absolutamente compreensível a posição bíblica sobre a homossexualidade diante do contexto cultural em que a humanidade vivia, o que não se justifica na posição atual da Igreja sobre o tema. A não ser que na compreensão da doutrina não colaborem em nada as outras áreas do conhecimento humano, ou que a Bíblia não precise ser interpretada no seu contexto originário para se compreender de maneira total a Revelação, ou, em resumo, a não ser que sejamos fundamentalistas.
No entanto, se em nível das declarações oficiais a questão homossexual permanece inalterada, com pequenos avanços ainda não satisfatórios para quem se sabe gay e deseja viver a plenitude da pertença à Cristo na Igreja Católica, em outros níveis eclesiais timidamente começa a haver uma mudança. Muitos leigos e leigas que, apesar do avanço de movimentos conservadores nas últimas décadas, individualmente percebem haver um equívoco em determinadas posições eclesiais. Sem contar iniciativas organizadas e sólidas de reflexão e atuação GLS católica, como a comunidade norte-americana Dignity .
Isto mostra existir outras posições além da oficial que se consideram também católicas, também inseridas na comunidade fundada por Jesus Cristo. Será que tais pessoas, comunidades, mentalidades podem de fato ser consideradas Igreja Católica?
A resposta vai depender do que significa “ser católico” para cada um. Se pertencer ao catolicismo significa adentrar nas fileiras uniformes sob o comando da mentalidade única do papa, poucos o conseguirão fazer, se forem sinceros. Mas se, assim fosse, haveria ainda catolicismo no sentido mais original do termo, ou seja, o chamado a ser Igreja seria de fato para todos os seres humanos?
Um chamado para todos os seres humanos desde que eles caibam em uma estrutura fixa e rígida e não ajam de acordo com o que são (já que a sexualidade é muito mais do que uma questão do gênero sexual da pessoa por quem um indivíduo se sente atraído) é ainda um chamado à liberdade? É ainda um chamado feito na gratuidade? A pergunta que está por trás ao se refletir não só sobre a pertença eclesial dos gays, mas de todos os outros que se encontram à margem do discurso oficial, não é sobre a moral católica, mas sobre eclesiologia, sobre a compreensão do que é a Igreja. É possível a diversidade de pensamentos, vivências, visões de mundo no catolicismo?
Se esta pergunta nos provoca, nos constrange de alguma forma, nos amedronta porque parece ameaçar o reino das verdades definitivas ao qual me agarro para ter segurança, mesmo que não consiga viver ou mesmo explicar o porquê das coisas serem assim me contentando com o argumento de que “Roma dixit” (Roma disse, ou seja, não há mais o que conversar) a resposta será: “não, é impossível”. Está resolvido. A Igreja é uma realidade monolítica e homogênea, guiada por autoridade não apenas central, mas centralizadora e que tem bem definida as mínimas configurações para quem deseja fazer parte dela. Quem não puder, tente, se arrependa, tente de novo, ainda que passe a vida angustiado e tenha a sua auto-estima esfacelada pela luta interna contra si mesmo, tenha a esperança de ser feliz, um dia, no céu, quando tudo se acabar. Mas cuidado, pode ser que ao chegar ao banquete eterno encontremos à mesa muita gente diferente, aparentemente não convidada (Mt 8,11).
Mas se a nossa opção for levar a sério a vocação católica/universal da Igreja? Sobre que base é possível experimentar um catolicismo plural, diverso e absolutamente autêntico?
Já disse que antes de perguntarmos à moral sobre os gays, precisamos perguntar à eclesiologia sobre a compreensão do que é a Igreja. Mas, ainda há uma questão anterior, mais primordial para entendermos a comunidade eclesial: que Deus se revela na Igreja, na comunidade de fé?
O Concílio Vaticano II pôs em primeiro plano uma característica da Revelação divina que se deve ao contexto judaico em que se deu a revelação: ela é uma experiência, feita através de atos e palavras, e não um conjunto de verdades comunicadas do intelecto divino ao humano. O judeu semita não era um teórico como o grego, mas precisava de imagens para compreender. Talvez por isso a insistência de Jesus nas parábolas que, de forma prática, transmitiam os ensinamentos da Nova Aliança.
O cristianismo ganharia uma conceituação mais elaborada quando entrou em contato com o mundo greco-romano, iniciado através de São Paulo, e prosseguido pelas gerações seguintes. Então foi preciso dialogar com as diversas correntes filosóficas e explicar “racionalmente”, de acordo com o pensamento grego, a fé vivida originariamente nas comunidades advindas do judaísmo. Desse encontro surge a Teologia, na forma como a conhecemos e toda explicação racional que procure “dizer” a experiência da Revelação.
Esta inculturação (a fé vivida no contexto de determinada cultura) foi extremamente importante para a Igreja. Ela, de certa forma, abriu as portas para a evangelização de todo o Ocidente então conhecido, dominado politicamente pelo Império Romano e influenciado culturalmente pela herança grega.
Este encontro entre fé cristã e racionalidade ocidental atingiu o seu momento de maior comprometimento mútuo durante a Idade Média, quando toda a produção de conhecimento se dava em vistas da religião, a máxima “Filosofia, serva da Teologia” sintetiza bem esse momento.
Pode-se elencar muitas contribuições que este encontro entre fé cristã e pensamento grego gerou, uma das mais importantes é o conceito de pessoa humana. Porém, se a Teologia influenciou o conhecimento que hoje denominaríamos “laico”, também o contrário se deu.
Muitas vezes a Teologia não apenas serviu-se da Filosofia enquanto instrumental para a sua reflexão a partir dos dados específicos da fé cristã, mas também foi influenciada por esta mesma Filosofia ao refletir sobre Deus.
Não que isso signifique um erro, mas a palavra final sobre Deus é, sem dúvida, a da Revelação que, mesmo quando concorda com os atributos descobertos pela luz natural da razão, os reformula em muitos âmbitos.
Desta maneira, a Revelação pode e deve contar com os auxílios humanos que a Graça também inspirou, a partir da capacidade racional dos grandes filósofos. Mas quem tem em si, de acordo com a nossa fé, a prerrogativa única de ser a própria auto-compreensão divina é a Revelação.
O problema é que, com o passar do tempo, em muitos aspectos foi se esmaecendo a riqueza e especificidade da Revelação sobre Deus de diversas formas. É justamente por causa disso que o Concílio Vaticano II bradou um “retorno às fontes” para auferir da sagrada Escritura e da Tradição o mais próprio da fé cristã.
Se o encontro do Deus bíblico com as categorias do pensamento grego foi importante para a evangelização do mundo – já que ofereceu categorias racionais para se estudar e divulgar a Revelação –, também fez com que, progressivamente, Deus fosse identificado com um ser eterno, onisciente, imutável, que, “lá de cima”, coordena todas as coisas com sua vontade onipotente. Um só Deus que reina sobre todas as coisas, assim como uma só e suprema idéia era a mais importante no pensamento platônico (A Idéia do Bem) e no esquema aristotélico no qual todas as coisas que se moviam, as do mundo, o faziam em direção a uma única e imóvel: “o motor imóvel”.
É bem verdade que podemos admirar com espanto como a idéia da unidade de Deus esteve presente em alguns sistemas filosóficos, tendo sido também um dado específico da Revelação Judaico-cristã. No entanto, se não estivermos atentos às nuances de cada maneira de compreender a este ser supremo, poderemos deixar passar as grandes diferenças existentes nesses sistemas de pensamento, mesmo em relação a este atributo, a unidade.
Se o mundo em que vivemos é tão cheio de movimento e transformações, o ser humano sempre entendeu, quer na religião, quer na Filosofia, que a causa responsável pelo dinamismo da vida, pelas transformações todas e de qualquer espécie que vemos, essa não poderia ela mesma se mover, mudar. Há um eixo central para o mundo, um imóvel que assegure o movimento , enfim algo seguro e estável em uma existência que está constantemente ameaçada por tantas mudanças. Não é muitas vezes sentindo tais transformações que parecem tão ameaçadoras que redescobrimos a Deus como porto seguro, refúgio e sustentáculo? Não é quando as ondas agitam a nossa vida, frágil embarcação, que recorremos àquele que pode, com uma ordem, fazer tudo voltar à calmaria, cessando o movimento ?
Esse princípio seguro, único e sustentador do universo, aquele que se encontra “por trás” do movimento, foi chamado de “Ser”, do “Uno”, entre tantos outros nomes dados a ele na Filosofia e pela religião denominado “Deus”.
Precisamos que ele assim seja. Que fique eternamente parado, estável, imutável afim de que nos segure nas mudanças da vida. A religião que, como diz a própria etimologia da palavra, nos “religa' a esse fundamento, por conseguinte também deve ser desta mesma forma. Tudo pode mudar, menos ela, porque é na fé que nos agarramos quando as outras coisas se transformam.
E de fato, Deus não muda, é eternamente o mesmo, e no entanto, de uma mesmice muito diferente do tédio e da falta de movimento. A eternidade dinâmica de Deus chama-se Trindade.
O Ocidente, o pensamento, a religião têm se esquecido desse caráter trinitário. Não teoricamente, pois seria uma heresia, mas carrega, muitas vezes em sua práxis a concepção de um “Deus-bloco-monolítico”, sempre sentado em seu trono a legislar coisas definitivas para os pobres mortais.
Para entendermos toda a riqueza trinitária é preciso inverter uma forma muito característica de pensarmos. Quando pensamos nas pessoas, homens e mulheres, esta idéia expressa a noção de pessoa como sendo um centro individual, consciente, um “eu-Fulano”, “eu-Sicrano”. E a relação humana começaria justamente quando dois desses “eus” se encontram. Existem dois indivíduos, duas pessoas e por isso, pode se estabelecer uma relação.
Quando aplicamos este conceito de pessoa a Deus, estamos, sem dúvida muito acertadamente, querendo dizer que Deus é um ser consciente, livre e não uma força, uma energia, algo sem inteligência e vontade próprias. Neste sentido é correto aplicarmos esta noção de pessoa a Deus.
Mas quando dissemos que Deus é uma comunhão de pessoas, uma comunidade de pessoas divinas, as coisas complicam, porque pensamos: “Ah, existe o Pai que entra em relação com o Filho e com o Espírito e assim acontece o mesmo, a partir de cada uma das pessoas trinitárias”. Primeiro a pessoa e então esta pessoa se relaciona.
Com o mistério do Deus trino é diferente. Pensemos na Primeira pessoa da Trindade: “Pai” não é nome próprio, como Valéria, Arnaldo, Elizah. “Pai” e “Mãe”, porque Deus é espírito gerador, expressa uma relação. Só é pai quem tem um filho, quem está em relação com o filho. Um homem é pai, trabalhador, flamenguista e mangueirense, Deus é Pai; o específico da sua identidade é estar “em relação com”, é gerar o Filho e assim fazendo-o, amá-lo, dar-se inteiramente. O Filho que não é o Pai, pois não gerou, mas foi gerado, é totalmente acolhido por ele.
O mesmo acontece com o Filho. Só pode denominar-se filho quem está numa relação com pai/ mãe. O Filho divino não é Filho e carioca e funkeiro, o Filho é Filho, sua identidade, sua plenitude está toda na sua relação com o Pai, está toda em ser gerado, em receber o seu ser do Pai e, em alegre gratidão e entrega, dar-se totalmente a ele. Não sendo o Pai, pois foi gerado por ele, abre-se plenamente ao divino abraço deste em comunhão eterna que se chama Trindade.
Este dinamismo da entrega e acolhida do Pai ao Filho e deste ao Pai é o Espírito que une a ambos, o amor recíproco do Pai e do Filho. E como o Pai não pode dar-se ao Filho a não ser totalmente, porque essa é a medida das coisas em Deus, da mesma forma faz o Filho em relação ao Pai. Por isso, o Pai está todo no Filho e este todo no Pai e ambos no Espírito. Sendo três pessoas são um único Deus pela plenitude de seu amor e comunhão.
Quando isto aconteceu? No princípio, antes de Deus criar todas as coisas? Não, isto não aconteceu. Acontece, Deus é esse dinamismo do eterno dar-se e acolher-se, é este que sempre sai totalmente de si mesmo para entregar-se em absoluto ao outro, a uma outra divina pessoa na Trindade e no mundo, aos seres humanos. E a duração desta comunhão dinâmica dos três divinos (Pai, Filho e Espírito) que são um só não se mede em minutos ou séculos, chama-se eternidade. Se fosse possível dizê-la em palavras, e aqui cabe uma ousadia, seria algo bem parecido com um eterno “já”, um sempre agora, o tempo que, contrariando a sua própria natureza, não passa, mas, se encontra todo presente, sem antes nem depois.
E que conseqüências pode ter para nós esta compreensão dinâmica de Deus como comunhão a partir de diferentes pessoas trinitárias e não como um ser solitário e homogêneo?
Quando pensamos em Deus como um absoluto monarca, só em seu trono, é fácil termos uma postura diante da vida – incluindo aqui uma compreensão de Igreja – que compreenda o diferente como erro, como perigo. Um só Deus no céu, uma só verdade na terra que provém desse Deus para aqueles que são suas autoridades aqui embaixo e uma só compreensão diante do ser humano e do mundo. O diverso disso é sempre um equívoco, uma heresia, uma ameaça. Pois há um único princípio que sustenta e estrutura toda a realidade, e que se constitui chave de compreensão absoluta para esta.
Em um primeiro momento, pode parecer forçada a conseqüência desta forma de pensar a unicidade divina. Mas basta olharmos para a história para vermos as suas confirmações. Por que, politicamente, a Igreja se opôs à democracia? Porque se Deus é único, decorreria daí também a existência de uma única autoridade espiritual (o Papa) e mundana, governamental (o rei). A partir deste princípio percebemos também a dificuldade do diálogo inter-religioso, pois cada religião é uma visão de mundo tão absoluta que se excluem umas às outras. Em uma compreensão não suficientemente trinitária da unicidade divina, há uma só autoridade, uma só verdade, uma só natureza humana e interpretação dos fatos que não admite variações. O diverso é sempre errado.
Já se compreendemos a unicidade de Deus a partir do específico da comunhão trinitária, percebemos que este atributo divino surge do acolhimento amoroso do diverso. Não se tem um princípio homogêneo do qual brotem todas as certezas que devem ser impostas aos outros, mas a verdade surge de um sair de si mesmo e abraçar o outro em sua diferença, surge quando se acolhe o outro naquilo que ele tem de mais específico. A diferença não ameaça a unidade, a realiza.
E é claro que a Igreja sabe disso. Desde o Concílio Vaticano II se tem insistido, ainda que com frutos ainda escassos, na maior participação do colégio dos bispos nas decisões eclesiais, se tem revalorizado a importância leiga e a consciência do seu ”ser Igreja”. Este sinal, dentre outros, aponta que a Igreja é consciente de que a pluralidade de carismas, vocações e a diversidade humana e cristã a tornam verdadeiro ícone trinitário, a imagem de Deus para o mundo. Ela deve ser diversa, múltipla e, nessa comunhão amorosa, espelhar a diversidade que é o próprio Deus.
Assim como o Pai e o Filho sendo diversos são um no amor, também a Igreja tem como sustentáculo a comunhão, não entendida como a reunião do mesmo, do igual. Comunhão, na entrega e no acolhimento, se faz com o outro, com todo tipo de diverso. Uma comunhão que só admitisse o igual não seria comunhão, mas narcisismo.
E aqui eu quero, a partir da reflexão trinitária, tocar em mais um ponto controverso. Uma das objeções ao “amor gay” é que, sendo o amor do igual, fechado em si mesmo, uma atitude meramente egocêntrica e, por isso, merecedora da linda expressão cunhada tantas vezes nos documentos oficiais: um ato intrinsecamente desordenado.
Aqui a principal questão é a maneira como se compreende o ser humano. Dissemos que a noção de Deus como um princípio homogêneo, absoluto e, no fundo, sempre igual a si mesmo constrói um mundo de objetividades, muito claro e preciso.
Assim, poderíamos dizer o que o ser humano é, explicá-lo a partir daquilo que o constitui: ser homem, ser mulher, ser racional. Com base nestas informações e em tantas outras é que se definiam antigamente os papéis, a missão de alguém no mundo. Por exemplo, na Idade Média, se você fosse homem e o primogênito cabia a você a herança paterna, se fosse primogênita, sendo mulher, deveria se casar antes de suas irmãs mais novas. Ou seja, as características de cada pessoa definiriam sua missão e identidade no mundo. É mais ou menos esta concepção que está por trás da chamada “lei natural”, visão fixista do ser humano que serve de base para os juízos morais da Igreja. Haveria determinadas características no ser humano que definiriam para ele as atitudes a tomar, a maneira de viver. Este “agir de acordo com aquilo que se é” (e o que se é está definido na lei natural) não pode ser “negociável”, mas precisa ser acolhido como algo definitivo, como, por exemplo, a identidade sexual masculina ou feminina, Se você é homem, é feito para uma mulher e o contrário, no caso da mulher, simples e ingênuo assim.
Com novas formas de compreender o ser humano e a vida, como por exemplo, o inconsciente de Freud – que nos mostrou não sermos o reino da objetividade racional que supúnhamos – e com o aparecer de outras culturas que pensam a realidade de forma bastante diversa da ocidental-cristã, fomos nos dando conta que talvez muitas das afirmações que constituem a nossa visão de mundo, não são absolutas, mas foram sendo construídas por uma série de processos históricos. Vamos nos dando conta que o que significa ser homem ou mulher não está armazenado, marcado de forma definitiva e natural em cada um de nós, mas é a conseqüência de um acúmulo de compreensões que, por uma razão ou outra, prevaleceram sobre as demais. Isto nos ajuda a tomar certa distância dos “absolutos” quando estes são muitos detalhados e rigidamente definidos.
Além disso, será que o fato de partilharmos algumas características em comum que nos identificam como ser humano do sexo masculino e feminino nos torna realmente iguais? Esta compreensão pressupõe uma maneira de pensar ainda muito ligada a definições. Se um ser humano é do sexo masculino e se chama João ou Carlos, ou do sexo feminino, chamando-se Patrícia ou Clara, o que eles têm em comum, ser humano de determinado gênero sexual, é o bastante para defini-los como iguais?
Dissemos antes que as pessoas divinas não podem ser compreendidas como núcleos isolados que em um segundo momento se relacionam. Guardadas as devidas proporções, bem desproporcionais quando “comparamos” Deus e o ser humano, o mesmo se pode afirmar a nosso respeito. Há sim, determinadas características que nos são comuns, mas jamais seriam suficientes para nos tornar iguais. As experiências por que passamos, as múltiplas relações que experimentamos durante a vida e a maneira como internamente recebemos tudo isto formam muito mais a nossa identidade específica do que definições gerais. Não há um ser humano igual a qualquer outro. A história das nossas relações nos forja de maneira única e irrepetível. Por isso, só alguém, pessoa ou instituição, que não estivesse atenta à dinâmica da vida poderia entender o “amor gay” como um fechamento egoísta no igual, no “em si mesmo”.
Mas o melhor de tudo é que não nos pomos a desconfiar do quão carregado de pré-definições e acúmulos meramente históricos é essa tal de “lei natural” por estarmos perdendo a fé, ou nos afastando da Igreja, ou por uma rebeldia infantil. A nossa fé adulta em Deus nos recorda que, antes de ter uma identidade fixa de “Pai” ou de “Filho” ou “Espírito”, cada uma das pessoas é ela própria porque se abriu, se pôs em relação com o diverso de si mesma. Ou seja, se a comunhão pressupõe a diversidade, esta só se realiza quando não despejamos uma série de pré-definições (pré-conceitos?) sobre aquilo que aparece como diferente, mas temos uma postura humilde diante de Deus, de, pelo menos, ouvir este “diverso de mim” que se propõe a dialogar.
Até bem pouco tempo atrás, a humanidade era pensada como sendo toda heterossexual. Esta era a regra. Não queremos que a Igreja acolha uma mudança tão abrupta e que ainda está se fazendo à base de muita luta e tantos conflitos. Seria desejar demais. Queremos apenas que ela não se negue ao diálogo, não rejeite a diversidade só porque não é o mesmo, o igual. Justamente porque, sendo um no amor, Deus é uma unicidade heterogênea que se realiza na diferença do Pai e do Filho.
Aqui penso Igreja não só, e nem principalmente como Magistério, mas em cada um que segue a Jesus Cristo e procura viver aqui na terra esta comunhão amorosa com os outros, cuja plenitude esperamos ser o céu. Penso no rosto de cada um pessoalmente, a face verdadeira da Igreja. Na época de Jesus, quem diria que o rosto dos leprosos, prostitutas e pecadores públicos (uma espécie de gente “intrinsecamente má”) seria o mais procurado por Deus? Quem da instituição religiosa contemporânea a Jesus perceberia que seriam essas pessoas o sinal do amor gratuito e universal do Pai que se constitui na grande boa-nova do reino? E, hoje? Que faces e rostos? De que excluídos e marginalizados Deus hoje está à procura?
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