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A experiência partilhada fomenta comunhão. Este espaço está aberto para expressar vivências que testemunhem à inclusão de todos no Povo de Deus.

Envie seu texto com até 20 linhas para o e-mail contato@diversidadecatolica.com.br e ele poderá ser publicado.

A história da minha vida.

Minha Vida a Deus pertence. Eu não tenho o direito de tirá-la.

Sou um jovem e vou contar um pouco da minha história. Nascido em família humilde, fortemente conservadora e católica. Até a adolescência, tudo era normal, ao menos parecia normal. Não me dava conta de que algo em mim era diferente. Que os sentimentos eram diferentes. Sentia algo que não entendia, achava aquilo normal, nem se quer sabia o que significava homossexualidade. E como acontece em quase todas as famílias conservadoras, na minha não era diferente. Qualquer pensamento, ato ou atitude que rompesse com os bons costumes da Igreja Católica era pecado. Aos poucos comecei a perceber que algo de diferente estava acontecendo comigo.

O fato de ser criado numa família de costumes rígidos e conservadores contribuiu para que tudo fosse reprimido. O simples “pensar” na sexualidade era pecaminoso. Tudo ficou por muito tempo escondido a sete chaves. Todo pensamento de conotação sexual era tratado por mim como pecado e deveria ser repudiado, evitado, reprimido. Buscava forças na oração em busca do perdão divino.

O que eu sentia e por quem eu sentia era diferente. Isso começou a causar espanto, medo, curiosidade. As perguntas sobre mim mesmo começaram a surgir, e cada vez mais sem respostas, foram se acumulando. Sempre me entregava à oração em busca do perdão por tais pensamentos, pois tudo parecia tentação para o pecado. Mais perguntas sem respostas surgiam: por que somente eu era diferente das outras pessoas? O que estava acontecendo comigo? Aqueles sentimentos seriam sentimentos pecaminosos até que ponto? O que é homossexualidade? Por que é pecado? Por que tudo é pecado? Qual seria a fronteira entre o certo e o errado, o sagrado e o profano, o santo e o pecaminoso?

Quanto tive o primeiro contato com alguém que sentia o mesmo que eu sentia, era a primeira conversa com alguém homossexual. Um senhor vivido, que tinha muito a ensinar. Uma pessoa honesta, índole sincera, que estava disposta a falar às claras sobre todas as dificuldades que eu enfrentaria com a descoberta da minha condição humana, visando a sua aceitação. Uma mistura de medo, de curiosidade, de incertezas tomou conta de mim. Até onde deveria acreditar no que aquela pessoa me falara?

Meus pensamentos passaram a conflitar com os tabus da Igreja Católica com as verdades que acabavam de vir à tona, mas que eu não queria aceitar. Eu não queria ser assim. Eu não podia ser assim. Eu jamais iria me aceitar sendo assim. Eu pensava: ninguém iria me aceitar se eu fosse homossexual. Nesse momento da vida, a coisa mais valiosa seria contar com o amor, o apoio, o carinho da família. Mas eu não tinha com quem contar. Ninguém jamais poderia saber. Eu estava sozinho no mundo. Eu precisava fugir, fugir de mim mesmo, me libertar, viver longe, onde minha família não viesse a descobrir a verdade sobre mim. Eu não sabia o que fazer da minha própria vida.

Passei a me dedicar ao trabalho e aos estudos, com o firme objetivo de vencer profissionalmente, ter minha independência e estabilidade financeira. Pensei: quando eu conseguir tudo isso, todos os meus problemas estarão resolvidos e nesse dia eu serei feliz. Não precisarei dar satisfação a ninguém. Contudo, cheguei ao objetivo nos estudos, profissionalmente, estável financeiramente, mas a felicidade continuou distante. Por que? Algo continuava errado. Eu havia nascido pobre e havia vencido na vida, eu não devia satisfação nenhuma a ninguém. Mas eu não me sentia feliz. Eu não conseguia aceitar a mim mesmo. Eu olhava no espelho e sentia vergonha de mim mesmo. Sempre me sentia menos que as outras pessoas, simplesmente por ser diferente. Quanta tristeza.

Os sentimentos depressivos foram se agravando a ponto de me sentir um verme, um monstro, ter vergonha de olhar o reflexo no espelho, vergonha de olhar nos olhos das pessoas. Embora as pessoas nada soubessem sobre mim, parecia estar escrito na minha testa: homossexual. Se alguém do círculo de amigos tocasse em algum assunto envolvendo a homossexualidade, o mundo parecia desabar em cima de mim. Parecia que todos iriam descobrir naquele momento. Meu Deus, era muito sofrimento para continuar vivendo. A depressão foi se agravando e tirando o amor pela vida, a ponto de pensar por várias vezes em suicídio. Nada mais importava. De que adiantava continuar vivendo, pois o mundo parecia conspirar contra mim. Eu achava que já não valia mais a pena viver, pois mais cedo ou mais tarde as pessoas iriam descobrir e tudo ficaria pior. Eu precisava dar um fim ao meu sofrimento.

Jamais perdi a fé em Deus. E acho que isso foi o que me fez sair do fundo do poço sem auxílio de um profissional de psicologia. Na verdade não tive coragem de ir ao psicólogo. Eu pedia a Deus uma luz para minha vida e um dia um amigo me disse: não faça nenhuma besteira com a sua vida. Apenas dê tempo ao tempo. As respostas começarão a surgir. As respostas que você procura estão dentro de você. Somente você pode descobrir dentro de você a alegria de viver. Somente você pode vencer a depressão e a sua rejeição.

A fé em Deus me tirou do fundo do poço. Com acesso à internet, passei a pesquisar tudo o que podia sobre a homossexualidade. Li muito. Li tudo o que aparecia. Procurei saber o que cada religião pensava sobre o assunto. Descobri existir desde a mais homofóbica das religiões, que ao invés de pregar o amor entre as pessoas, independente da sua condição sexual, pregam o ódio entre as pessoas, ao descobrir que são homossexuais. Outras religiões, me deixaram impressionado, pela forma natural com que tratam a homossexualidade. Dentre os que mais me impressionaram, cito o espiritismo de Chico Xavier - uma consciëncia extremamente evoluída para sua época. A abordagem da homossexualidade pelo espiritismo mostram que Chico Xavier estava muito além do seu tempo. Jamais condenou alguém pela condição humana. Jesus Cristo em nenhuma passagem de sua vida condenou os diferentes mas, sim, lhes concedeu o perdão.

Bem, depois de ler muito, sofrer muito, pensar, repensar a vida, rezar, rezar muito, tomei coragem e fiz algo que há muito tempo queria fazer e não tinha coragem. Fui conversar com o padre aqui da igreja onde participo das missas. Comecei a conversa e logo vieram as lágrimas, abri meu coração. Não sabia qual seria a reação dele, mas estava feito. Para minha surpresa sua resposta foi: Deus te ama do jeito que és. A sexualidade humana é muito complexa para ser julgada ou condenada por nós humanos. Apenas não faças violência contra ti mesmo. E continues a ser temente a Deus.

Era a semana do Natal de 2008. Essa conversa com o padre mudou minha vida. Passei um Natal muito feliz na casa de meus pais. Comecei a encontrar as respostas para a felicidade dentro de mim mesmo. Aquela necessidade de saber se as pessoas iriam me aceitar ou não, começou a desaparer no momento que eu descobri que o mais importante é estar bem comigo mesmo, pois minha vida somente eu posso vivê-la. E a vida é muito curta para ser desperdiçada. Ninguém precisa saber nada sobre mim. Nada preciso comentar. A minha sexualidade interessa somente a mim e a mais ninguém. Eu apenas preciso estar feliz comigo mesmo e em Paz com Deus. É importante jamais agredir as pessoas com atitudes ou gestos, é preciso dar o respeito para ser respeitado.

Se eu tivesse que dizer algo hoje eu diria: "Preocupe-se mais com a sua consciência do que com a sua reputação. Porque a sua consciência é aquilo que você realmente é e a sua reputação é aquilo que os outros pensam de você. E o que os outros pensam de você é problema deles!"

Uma palavra de apoio é muito importante. Palavras como as do site Diversidade Católica estão salvando muitas pessoas da perdição, da perda de amor pela vida, do suicídio. Falo com a propriedade de quem já chegou muito perto disso. Graças a Deus, atitudes como as de vocês estão mostrando que acima de tudo Deus nos ama e a vida vale a pena.

Outra atitudes louvável é o programa Direção Espiritual do padre Fábio de Melo, Em suas palavras consegui encontrar conforto e respeito na aceitação da condição humana.

Uma das mais belas declarações que já assisti abordando a homossexualidade é o vídeo que está no link: http://direcaoespiritual.blogspot.com/search/label/homossexualidade

Declarações como as do padre Fábio e publicações como as do site Diversidade Católica transformam a vida de muitas pessoas, auxiliando-as a se aceitarem e a se superarem, fazendo com que se sintam filhos de Deus, acreditem no seu perdão, e ainda consigam ter de volta a alegria de viver.

Xavier, Curitiba

Sobre a Paróquia:

Quero falar da minha alegria ao receber tantos irmãos do Diversidade na minha paróquia durante a Páscoa. Me senti como recebendo amigos queridos em casa. Tenho falado muito como para mim hoje a igreja vai muito além de um espaço físico ou de uma doutrina, mas foi um enorme prazer descobrir que aquele espaço físico também é meu, e compartilhá-lo com pessoas tão queridas.

Aquela igreja também é minha casa e foi nesta Páscoa que eu descobri efetivamente isto. Estou lá todo domingo com o homem que eu amo (geralmente a gente briga antes da missa pois ele não suporta chegar atrasado e eu sou mais relaxado com horários). Na missa encontramos sempre com vários amigos (inclusive minha sogra) e adivinhamos futuros membros do Diversidade (muitos....).

No fim da missa esperamos sempre para falarmos com o padre, que está sempre apressado, mas nunca tanto que não possa nos dar pelo menos um sorriso. Na missa na minha casa, tem o Lucas, o menor coroinha que eu já vi, tem o outro coroinha com um topete enorme, tem a velhinha de cadeira de rodas que dorme a missa toda, tem varias pessoas que eu não sei o nome mas que me sorriem felizes quando me encontram na rua. Aquela igreja também é minha casa, porque eu reafirmo todo o domingo meu desejo de estar nela. E quando eu saio da missa ela me acompanha por toda a minha semana. Amo vocês.

Sobre Arnaldo, o seu companheiro:

Quando eu penso na improbabilidade do nosso encontro, eu sei : o amor de Cristo nos uniu.

Quando eu busco algum sentido nas nossas vidas antess de estarmos juntos, eu sei: o amor de Cristo nos uniu.

Quando eu rio do enorme esforço que foi conseguir estar perto dele, eu sei: o amor de Cristo nos uniu.

Quando eu me perco e ele me encontra, eu sei: o amor de Cristo nos uniu.

Quando meu cansaço ele consegue transformar em esperança, eu sei : o amor de Cristo nos uniu.

Quando vejo que posso viver sem ele, mas que ele é minha melhor escolha de vida, eu sei : o amor de Cristo nos uniu.

Quando escuto dizerem que estar com ele é pecado, e ele vai me buscar na saída do metrô com a Maysa, eu sei: o amor de Cristo nos uniu.

Quando apenas sorrindo ele consegue falar de amor com mais fluência que qualquer poeta, e sobre Deus com mais propriedade que qualquer teólogo, eu sei: o amor de Cristo nos uniu.

Quando só ele entende realmente o que eu falo, quando ele entende que minha raiva é na verdade medo, quando ele me abraça, mesmo dormindo, eu sei: o amor de Cristo nos uniu.

Quando sei que ele, humano, me apontou o caminho do amor divino, eu sei :o amor de Cristo nos uniu.

R., Rio de Janeiro

Sou oriundo de familia católica. Desde criança já me sentia diferente, não em comportamento, mas sim em sentimento e interesse. Não poucas vezes fui ironizado, cobrado, relegado, seja na familia ou entre colegas de classe. Era eu o avesso do avesso, com respeito a Caetano.

Na adolescência, com todo o turbilhão que a idade permite e impele, me sentia o estranho mesmo, comparado com pessoas que eram e são diferentes de mim... Vivia sob o julgo do Deus punitivo, que tudo vê e castiga, desde que não trilhemos aquilo pensado, tido e havido como o correto, e nao só na esfera sexual. Assim, toda a sexualidade ficou reprimida. Outras vozes surgiram, e por graça Dele, me deram chance de ser quem sou. Foram importantíssimas na construção de um ser, que se vê e se reconhece como filho de Deus.

Na busca de tentar ser pleno em minha sexualidade, com todo o volume de dúvidas, incertezas e medos, procurei vários sacerdotes. E como de muitos tive respostas que pouco me convenciam, mas era o que tinha, empenhei-me em compartimentar minha sexualidade. Em movimentos da igreja via-se a homossexualidade como doença, o que já tinha sido reiterado por padres em minhas confissões e conversas. Busquei então a cura, se doente assim era. Empenhei-me no estudo da palavra, tornei-me ministro da Eucaristia, e já não mais me reconhecia como ser sexuado. Sublimei e assim me propus a viver.

Como as coisas nem sempre seguem o curso que nós queremos, não consegui assim ficar... Na ansia de ser pleno, inclusive com minha sexualidade, recebi informações e orientações variadas. Uma delas foi a de me afastar da Eucaristia porque, vivendo então um relacionamento homoaefetivo, eu estava como um casal hétero que não havia recebido as bênçãos do sacramento do matrimônio. Assim o fiz, mas a Eucaristia me fazia falta. Sei de maneira clara o quanto me é importante participar da mesa eucarística.

Nestes estudos aprendi que meu Deus não era mais aquele que me haviam catequizado. Meu Deus era, e é, MISERICORDIA e AMOR. Meu Deus agora coloca ovelhas no colo, sente a dor de perder, olha com carinho a prostituta, deixa o legado do amor como mandamento principal. E assim, no AMOR e por AMOR, a nova aliança Nele é feita.

Nestas idas e vindas à procura de alento, orientação e possibilidade de alguém me deixar ponderar sobre o Deus revelado, encontrei a bondade de um frei franciscano numa missão no interior de São Paulo. Eu estava na agonia, entrei na igreja e nela encontrei o Cristo, na face pálida de um senhor sem hábito, mas com o semblante tranquilo, que num lapso de sorriso me acolheu. Senti-me como aqueles que sentavam-se ao largo de Jesus para ouvi-lo. De coração aberto, sangrando até, coloquei-lhe tudo o que aqui já escrevi, e fui surpreendentemente confortado com o sorriso de uma face sabia e tranquila, que me disse: VIVA SUA SEXUALIDADE COM DIGNIDADE. E num abraço em que se fecharam os olhos - o sinto - fui acolhido e confortado.

Hoje esta orientação baliza o meu comportamento. Deixo-a aqui para que todos os que lerem, saibam que antes de sermos homens e mulheres, quaisquer que sejam nossas orientações sexuais, somos "filhos diletos do Pai". Ele "permutou reinos por nós" e nos "libertou para sermos inteiramente livres" deixando-nos o legado do AMOR. E eu estou certo de que os frutos de meu amor homossexual são os mesmos que São Paulo descreve em Gálatas, como frutos do Espírito!

Paulo, São Paulo

Queridos irmãs e irmãos em Cristo do Diversidade Católica,

Há muito desejava falar um pouco sobre os últimos dois anos da minha vida no portal do Diversidade Católica. Como nunca recebi o “aviso” sobre o momento certo para isso, resolvi inventar o tempo de compartilhar no agora...

Não esqueço da tamanha angústia que sentia num dia de pouca concentração no trabalho da Pastoral do Dispensário lá na minha querida Paróquia da Ressurreição em Copacabana, Rio de Janeiro. Era uma tarefa que exigia cuidado, já que garantia o sustento alimentar mensal de pessoas desempregadas e carentes de recursos para a própria sobrevivência. Sentia-me até egoísta por só pensar no momento absolutamente conturbado pelo qual passava: estava em qualquer lugar, menos ali, no adro da igreja que, de tão especial, sinto o seu cheiro.

Em meio à vergonha e à imensa culpa que ninguém daquela Paróquia me ensinou, mas que procurei construir através das minhas próprias leituras da Bíblia e do Catecismo da Igreja Católica, encontrei uma pessoa muito querida e fiz uma espécie de revelação velada: depois de 11 anos de um relacionamento hétero frustrante desde o início, mas que acabou em casamento violento cheio de agressões físicas e verbais, eu começava a questionar a minha (des)orientação sexual...

Foi então que essa querida amiga mais de coração e admiração pessoal do que em contato constante, me falou que havia fundado um grupo cuja intenção inicial era tentar ser um espaço para receber de braços abertos a todos aqueles que escapavam à hetoronormatividade que nos parece imposta socialmente, como se o amor só fosse possível através do par homem-mulher e, ao mesmo tempo, se identificavam ou algum dia se identificaram com a espiritualidade/religiosidade cristã católica.

Atendendo ao chamado que o Divino Espírito Santo me fez através dessa minha colega de Crisma e testemunha ocular do meu casório, com direito a vestido de noiva e promessa de eternidade diante do altar, compareci à primeira reunião do Diversidade e logo me senti muito bem acolhida. Todos falaram de suas experiências pessoais, de suas dores e de seus amores. Estavam presentes mães que descobriram que seus filhos eram homossexuais e o quanto eram pessoas melhores assim. No meu ouvido ressoavam palavras do amor incondicional de Deus por todas as pessoas, independente de cor da pele, origem social, filiação religiosa e até mesmo orientação sexual...

Mas aquele primeiro contato não foi o suficiente para mim. Muito estava para acontecer, como ainda agora, na busca interior que revela uma imensa sede de conhecer a Deus, apesar de tão pouca fé, talvez... Eu estava no auge do meu processo de depressão profunda, de auto-sabotagem por tudo o que pudesse me oferecer o mínimo de prazer, no ápice do alcoolismo e da miséria afetiva e profissional.

O que tenho a dizer daqui em diante, não é o menor motivo de vergonha. É um imperativo, algo que me leva ao encontro do próximo como uma missão cujo único objetivo é o de tentar amenizar e evitar o sofrimento desnecessário de tantas pessoas que, como eu, se sentiram humilhadas e inferiores por serem gays, lésbicas, bissexuais, travestis ou transexuais e, de alguma forma, como que numa contradição de termos absurda sobre o significado da entrega total de Jesus Cristo na cruz, se sentiam ao mesmo tempo fora do mundo e afastadas do Caminho, da Verdade e da Vida.

Para tentar resumir, eu simplesmente achava que não merecia ser feliz e acabei realizando um “sonho” que me consumia desde a infância: o de, pelas minhas mãos, pela minha decisão longamente refletida durante anos, dar um fim à vida inútil que levava.

Claro que a tentativa de suicídio não foi bem-sucedida, do contrário não escreveria estas linhas. Foi como um milagre ter sobrevivido à ingestão, de uma só vez, de quase 100 comprimidos de medicamentos de tarja preta (que consegui através do tratamento contra a minha depressão distímica e bipolaridade, devidamente diagnosticadas por vários psiquiatras) mais altas doses de álcool. Isso ocorreu na Quinta-Feira Santa de 2008 e no Domingo de Páscoa eu estava saindo de um conhecido hospital público da cidade, o Souza Aguiar.

São fatos e datas plenas de simbolismo, uma verdadeira experiência de morte e ressurreição seguida de dias de cama na casa de minha querida mãe, que naquela altura do campeonato já estava a par da “novidade” na minha vida sexual, entre tantas outras coisas que me faziam sentir vergonha e culpa. Relendo o livro da minha vida ao contrário, como se quisesse dar um sentido coerente a ela, via como era muito mais familiar brincar com meninos do que com meninas na infância. Depois, já na adolescência, entendi retroativamente o porquê de tanto sofrimento quando, por algum motivo (mudança de endereço, por exemplo), tinha que me afastar das meninas com as quais julgava compartilhar um sentimento de amizade, quando na verdade era muito mais que isso.

Enfim, não foi nada fácil me descobrir como mulher gay, e imaginar que eu poderia ser feliz assim. Ainda não é completamente simples; trata-se de um processo em construção permanente de identidade, entremeado por flashes de contrariedades recheadas de falsos moralismos, certa descrença na capacidade de amar, sei lá...

Minha vida deu uma volta de 180 graus e hoje estou sóbria, prestes a ter alta médica, continuando a estudar e trabalhar com vontade e propósitos que não enxergava antes. Tento transformar minha auto-aceitação em militância pela causa LGBT, pois é algo que confere um colorido especial a tudo o que faço.

Não sei até onde tudo isso vai me levar. Ainda que seja chato e talvez constrangedor, preciso repetir esse depoimento para meus semelhantes e para mim mesma várias vezes. Querer morrer e ter renascido, ter experimentado a própria Páscoa, não foi algo negativo: foi um grito pela vida, foi uma passagem necessária para ser alguém melhor, para fazer valer à pena, para aprender a amar o próximo e confiar mais em Deus, que me quis e me quer assim, ao lado da minha companheira, ao lado daquela com quem divido o pão de cada dia.

Não espero e nem quero a compreensão de todos. Se minhas palavras puderem ser uma centelha mínima de lucidez, em meio à loucura dissonante que a vida pode ser se assim colocarmos as notas na pauta musical da nossa existência, já me sentirei bem. Tudo o que quero é poder ver um mundo mais tolerante, mais fraterno. Eu quero jogar fora todo e qualquer resquício de homofobia internalizada, eu quero que a sociedade seja cada vez menos homofóbica, eu quero ir ao encontro daquele ou daquela que sofre por serem homossexuais, bissexuais, travestis e transexuais, ao encontro dos que julgam estar longe de Deus por conta disso.

Quero agradecer aos amigos de carne, osso e espírito que me acompanharam na ambulância, evitando uma fatalidade; quero agradecer à compreensão, ainda que limitada, da minha família; quero agradecer aos que conseguiram me afastar do álcool sem que eu perdesse a parte boa da vida social que tinha antes; quero agradecer até aos dois gatinhos que ganhei porque eles são criaturas como anjos que nos acompanham sem questionar nada; quero a “sorte de um amor tranquilo” e quero pedir “piedade a essa gente careta e covarde”, fazendo eco às palavras da poesia genial de Cazuza. Por fim, quero agradecer aos irmãos em Cristo do Diversidade Católica, com os quais também aprendi a amar a Deus e me sentir amada por Ele, apesar de momentos vacilantes. Quero repetir as palavras do apóstolo Paulo na Primeira Carta aos Coríntios, capítulo 15, verso 10. “Pela graça de Deus, sou o que sou.”

Jacqueline Ribeiro Cabral
Doutoranda em História das Ciências e da Saúde pela FIOCRUZ e graduanda em Arquivologia UNIRIO.

Carta de uma jovem homossexual à sua mãe depois de revelar sua condição

Rio de Janeiro, 07 de agosto de 2005.

Mãe:
Na noite passada te chamei no meu quarto e comecei uma conversa boba com você. Eu estava angustiada e há tempos queria falar o que estava se passando comigo. Mãe sempre sabe das coisas, mas porque vocês se fazem de difíceis e de desentendidas? A senhora nunca se importou se eu estava namorando ou não? Há quanto tempo vocês não me vêem com um namorado? Nunca despertou nenhuma curiosidade ou achavam que eu nunca namorava mesmo? Pensei muito antes de te contar, preferi escrever... não é fácil para mim. A gente sempre conversou sobre sexo e sexualidade, sempre te apresentei meus amigos homossexuais, trouxe amigas para ficar comigo nos finais-de-semana. Não sei o que a senhora vai pensar de mim, mas eu preciso te falar. Sabe a minha amiga X (nome fictício), ela não é só minha amiga, eu tenho um carinho diferente por ela, você entende? Eu gosto dela e a gente namora. Eu sou feliz desse jeito e não é culpa sua ou algo de errado comigo. Também não sou frustrada por não ter dado certo nos relacionamentos com homens. Eu gosto deles, mas não posso fazer o que os outros querem e o meu querer onde fica? Não posso ser feliz pelos outros, mas sim por mim. Isso não vai mudar nada, eu continuo sendo a mesma pessoa e a filha carinhosa e dedicada de sempre, ninguém está me roubando de você, só estou namorando alguém do mesmo sexo que eu. Não me pergunte como foi isso, pois isso a gente não explica, não tem resposta, simplesmente acontece. Não estou fazendo nada de errado e não se envergonhe de mim. Você não errou, eu também não. Não posso mais viver num faz-de-contas e inventar histórias de namorados, não sei nem mais o que contar. Será que você acredita quando eu falo dessas histórias?

Mãe, não chora... eu preciso de você como minha amiga! Sou a mesma pessoa e quero me permitir gostar de quem quer que seja, mesmo que vocês não gostem...

Quando você quiser a gente conversa melhor sobre o assunto. Se quiser conta para o meu pai, conta para quem quiser se assim te fizer mais aliviada. Isso não é o fim do mundo, isso é outra forma de amar. Entende isso mãe!

Fonte: Sandra R. de Souza Marcelino, Trabalho de Conclusão de Curso de Serviço Social, PUC-RIO, 2008.

“Tenho estado toda a minha vida na Igreja Católica. 

Por muito tempo, fui intransigente e estritamente radical nas minhas opiniões, que, de fato, não eram minhas, mas reproduções de tudo o que ouvia dos padres, dos mais antigos nos movimentos que participei e também daquilo que lia no Catecismo sobre questões morais e sociais. Estas eram mais fortes e mais seguidas à risca que as próprias verdades de fé.

Nunca havia parado para refletir em tudo o que lia e ouvia das autoridades dentro da religião até que me percebi ‘diferente’ e soube de amigos íntimos que estes também eram como eu – um ‘diferente’ no meio dos supostos ‘iguais’.

Ora, se nós que sempre doamos todo nosso potencial para a Igreja e éramos tidos como referência aos demais jovens da comunidade nos percebemos de tal forma –  homossexuais, bissexuais –  ainda continuávamos a amar e partilhar e a ser imensamente abençoados por Deus, apesar da nossa escolha em termos um relacionamento com outros como nós, algo de incoerente havia naquela repulsa constantemente pregada, na maior parte das vezes de maneira velada, mascarada, que só nós mesmo entendíamos e que nos fazia sofrer, por sabermos que se tratava de um ‘povinho’ (como diziam) ao qual pertencíamos.

Nesse momento, se iniciou uma jornada de negação, compreensão, reflexão e, finalmente, aceitação. Deus tem me feito feliz da maneira que sou. Começo agora a ver todo estudo teológico sobre a questão da homossexualidade com mais discernimento. Nada daquilo que poda, oprime ou desvia o ser humano do caminho que grita seu coração pode ser condizente com as palavras de Cristo: ‘Conhecereis a Verdade, e a Verdade vos libertará’. A Ele, que me libertou da auto-condenação, honra e glória!

Amém.”

Pedro, Brasília

“Sou católica e hoje, mais do que nunca, me orgulho disso.

Em especial por que pude compreender a ação amorosa de Deus em minha vida por meio do grupo Diversidade Católica.

Na adolescência, aos 14 anos, optei por fazer a primeira comunhão. Tive uma breve passagem por paróquias próximas de casa e, desde então, já me sentia diferente dos demais jovens dos grupos pelos quais passava.

Talvez uma ação espontânea pela convivência e diferença foi me levando para fora do grupo, uma vez que esta diferença não seria corrigida. Assim como os meninos, eu também queria namorar meninas.

Esse afastamento poderia partir de uma tal ação espontânea ou do princípio de uma discreta homofobia que naturalmente foi me “expulsando” para fora do circulo católico.

Tentei participar de vários grupos, mas não consegui permanecer em grupo algum. Na minha compreensão de então, o que me afastava de Jesus era simplesmente o fato de ser quem sou – Ele não me acolheria por isso.

Naquela época, a homossexualidade era algo que me direcionava para o inferno e minava a relação de amor com o meu Senhor.

Procurei em outras religiões, de forma desenfreada, um Deus de amor que eu sabia existir, uma Nossa Senhora que me foi apresentada ainda na infância por minha mãe e que amava com amor de filha.

Passado algum tempo, tive a sensação que minha direção religiosa não era por ali e ao mesmo tempo outra sensação que era perturbadora. Não compreendia ao certo. Pois aquele mesmo Deus de amor odiava-me na Igreja Católica.

Foram anos de busca até deparar-me com um novo grupo católico que me fez sentir o amor e a presença viva e contínua de Jesus. Me fez retornar para casa.

Anos a fio fui assídua no grupo. Participava tanto na música quanto nas pregações e eventos da Paróquia. Fiz muitos retiros e, a médio prazo, percebi que a relação com aquele Deus lá do início ia de vento em polpa.

Minha mãezinha querida parecia estar próxima outra vez. A missa e a comunhão voltaram a ser um hábito e tudo estava perfeito.

Bom demais para ser verdade... Tudo seria perfeito se eu mantivesse a castidade e continuasse orando, pedindo a cura para minha suposta doença e se não sentisse falta de alguém para me relacionar ou mesmo vencesse o desafio da solidão. Quem sabe até se me tornasse religiosa, como cheguei a pensar naquele momento.

Nesta tentativa de vida – que durou cerca de sete anos – terminei por ter relação amorosa com uma moça também católica. Nós nos amávamos, mas era impossível suportar a nossa própria pressão além das outras que já conhecia. Fomos acolhidas por alguns padres e por outros, nem tanto. Nosso relacionamento terminou e eu continuei firme acreditando, ainda assim, numa provável cura.

Nada acontecia e, cada vez mais, me sentia frágil e diminuída por não ter fé o suficiente e vencer aquele “problema”. Ouvia sempre nas homilias e pregações que a homossexualidade era uma opção de perversidade, uma doença que tinha cura, bastava querer e ter fé.

Sendo assim, me distanciei da Igreja mais uma vez, agora decidida a não voltar.

Foi quando encontrei o grupo Diversidade Católica e compreendi que Deus é somente amor, não é perverso nem preconceituoso.
Tenho a compreensão que Ele me ama e nunca vai desistir de mim. Mesmo na confusão em que vivia, agora sei que Ele sempre esteve próximo me amando de forma incondicional.

Isto reflete na minha vida de maneira bastante importante. Hoje tenho uma diferente posição diante da sociedade e das pessoas com quem convivo. Não me sinto mais diminuída por ser gay e muito menos se mantiver um relacionamento.
O tempo vai me tornar mais forte, em especial se continuar mantendo contato com pessoas de realidades próximas e engrossar a fila dos que buscam respeito e direitos.
Fico imensamente feliz em saber que essa discussão vem ganhando corpo dentro da Igreja Católica e que há pessoas pensando na tentativa de tornar fato o que eu sempre sonhei.
Quero continuar servido a Deus na minha Igreja, ajudando na construção do reino do Senhor. Amém.”

Diva, Rio de Janeiro

“Um dos principais desafios que a vida pode nos trazer é a descoberta de ser gay.

Ainda criança se deparar com um forte sentimento de atração por outros homens nos faz vivenciar o medo da descoberta e o temor do abandono.

Angústias e choros se misturam a sentimentos de vergonha e culpa que nos fazem recorrer a Deus para que Ele nos livre desse destino.

E como Deus está sempre presente em nós, seja na figura de Jesus Cristo, seja na benevolente e sempre amada Mãe Maria, Ele nos escuta, não da forma como acreditamos que seríamos mais felizes, sendo algo que não somos, mas na forma de aceitação de nossa própria orientação sexual.

Passamos a aceitar a nossa própria vida, a sermos autênticos e a lutar interna e externamente pelo direito a sermos o que somos verdadeiramente, o que existe no mais íntimo em nós mesmos.

É claro que não é fácil. Os desafios, que se modificam, tornam-se estímulos para continuarmos com nossa luta. E a busca pelo desenvolvimento espiritual nos possibilita estar imersos em um amor incondicional que acalma e faz perceber que nada é mais importante do que sermos autênticos com as outras pessoas e principalmente com nós mesmos.

Marcus, Brasília

“Ser gay (bicha, viadinho ou mona) aos 30 anos e continuar sendo católico parece ser contraditório. E o é! Adoro as contradições. Foram padres e freiras contraditórias que me motivaram a perseverar na fé. O que temo é a incoerência, a incoerência da hipocrisia de se dizer ser o que não se é.

A tentativa de tomar como lema ‘A verdade vos libertará’ é um desafio muito grande, que não tenho enfrentado sozinho.

Imagino que, se todas as pessoas não heterossexuais saíssem da igreja católica, ela perderia a sua identidade. Há muita gente, dentro ou fora do armário, que faz a oração falar mais alto do que o que se lê e escreve lá em Roma. Há também aqueles cristãos e cristãs que não se libertaram, e acham que estão protegidos nos seus discursos e defesas homofóbicas de que nossa capacidade de amar e desejar é apenas uma.

Aprendi, depois que a culpa foi embora, que a nossa maior fragilidade é não reconhecermos os nossos desejos, porque assim estamos vulneráveis aos desejos dos outros, que, quase sempre, não são os nossos, graças a Deus!

A Igreja de Cristo não tem o direito de ser preconceituosa, nem de se pautar em uma leitura fundamentalista das experiências bíblicas para se manter no poder e legitimar formas de amor, desqualificando outras.

Eu não tenho vocação para a castidade ou a vida celibatária. A minha sexualidade é um dom, e por isso, como a Igreja me ensinou, não posso deixar de vivenciá-la, em plenitude, com tudo o que devo e tenho direito. Fazer sexo com um homem, sendo homem, é tão bom como deveria ser o sexo entre minha mãe e meu pai. Tudo isso é vocação.

Sou chamado a me ver e me perceber como um projeto de santidade em processo, como tantos outros fiéis. O sexo (publicamente defendido, prazeroso, criativo, não possessivo, não heterossexual e não procriativo) é uma parte deste processo, como a vida comunitária, a participação litúrgica, o engajamento político, e assim por diante.

A promessa de vida em abundância defendida pelo Cristo é para mim e para você. Como Ele, nós todos deveríamos lutar pela vida, ainda que por caminhos tidos como ‘pecaminosos’, mas que sabemos ser tão saborosos, transcendentes e especiais.

Desconfie de tudo o que lhe falaram sobre homossexualidade. Por medo de pecar, muitos deixam de se encontrar. Como sabemos, somos tentados a partir de palavras bonitas, a nos perder de nós mesmos.

Faça como o Cristo entre os pobres, se descubra em meio a aquilo que é apontado como ‘desumano’, ‘abjeto’, ‘pecaminoso’. Enfrente o seu desejo, e exercite a sua sexualidade. Empodere-se do seu corpo, que por sinal, como nos ensinaram os antigos padres, é templo do Espírito Santo, o lado feminino de Deus.”

Tiago, Campinas (SP)

“Sempre fui católico. Nasci em uma tradicional família católica nordestina, com 7 padres e 10 religiosas.

A culpa por ser gay me acompanhou por muitos e muitos anos. Na tentativa de 'vencer' meus sentimentos, exagerei nas penitências: dormir no chão, tomar banho frio, fazer jejum. Não bastasse a pesada carga que trazia nos ombros, resolvi entrar para o movimento Opus Dei.

A carga cresceu, a culpa triplicou e eu já não encontrava forças para lutar contra o sentimento de amar um homem. Para me livrar de tal pesadelo, fiz muitos retiros inacianos, carmelitas, adoração ao Santissímo... até que um dia, cansado de lutar, resolvi me aceitar.

Não pedi para ser como sou. Não pedi para ter os pais que tenho. Não pedi para ter os belos olhos castanhos que tenho. Percebendo o quanto Deus me dotou de qualidades, entendi que a minha homossexualidade não pode ser o ‘terrivel espinho na carne’ de que São Paulo fala. Mas, ao contrário, é a bela criatura para a qual Deus olhou apaixonadamente e disse: ‘é obra das minhas mãos... é minha imagem e semelhança’.

Sou feliz como sou: gay e católico."

Cesar, Zaragoza (Espanha)

“Quando saí do armário, tive uma ótima experiência com um padre católico, da minha paróquia (minha mãe meio que me obrigou a procurá-lo).

Ele me acolheu super bem, dizendo que eu não tivesse vergonha de ser gay e que não havia impedimento algum para que eu comungasse.

Ele disse que, infelizmente, a cúpula da Igreja ainda é muito conservadora, mas que MUITOS padres, hoje em dia, já estão encarando a homossexualidade com mais naturalidade.

Hoje meu problema é outro (profissional), mas o fato de ter me resolvido quanto a sexualidade/afetividade, já me aliviou bastante.”

Eduardo

“Outro dia, antes da missa, fui perguntar ao padre se fazia sentido eu pedir alguma coisa a Deus. Estava tenso, em época de provas. Costumava recorrer a Deus para me safar de enrascadas ou até mesmo para que o ônibus passasse mais depressa.

Ele me disse que sim, mas seria preciso observar minha atitude no momento de pedir. Entendi que colocar-me humildemente diante de um Poder Superior dá a dimensão do meu real tamanho. Posso me lembrar que o resultado das minhas ações foge ao meu controle, não está nas minhas mãos. A contemplação da infinitude de Deus dá a medida dos meus limites – o que me faz tanta falta!

Esta atitude de humildade é a chave para abrir o caminho à passagem da Graça Divina. Ela já está aí, em toda parte. Eu preciso apenas me abrir para recebê-la.

Nesses momentos de tensão – o trabalho não me deu folga para estudar, pelo contrário! – costumo sentir um aumento especial da minha libido. É! Ela ainda consegue ser mais exacerbada!

Os mecanismos desenvolvidos à custa de alguma maturidade, adquirida com suor nesses últimos anos, me acendem luzes e dão sinais de que esta libido exagerada é válvula de escape a pressões de outra natureza. Eles me avisam: ‘Atenção, Arnaldo! Faça suas escolhas conscientemente’. Hoje já consigo me dar conta disso – às vezes.

Meu desejo não se dirige ao gostosão ao lado, ou pelo menos não especialmente a ele. Trata-se de um desejo sem direção, sem forma. Um desejo difuso pelo ônibus lotado, pelo coletivo do vagão do metrô. Desejo de fundir-me com o Todo. Um desejo sem limites, ou melhor: desejo de romper os limites.

Aprendi desde criança a contrapor sensualidade à espiritualidade. Aos 12 anos minha libido explodia incontrolável e dei-lhe logo um apelido: bleura. Eu a identificava como uma febre que me demandava nudez e despudor. Aos 16, buscava defesa no evangelho: alimento espiritual para aliviar as pressões do corpo. Vivi esta dicotomia absoluta até os 18, quando os clamores da bleura me pareceram mais fortes que a sede do espírito. A absoluta inadequação de meu desejo – preferencial por outros homens – aos padrões morais da igreja em que ainda me encontrava inserido me atiraram mais inteiramente ao ‘outro lado da fronteira’.

Inconscientemente, passei a inverter o processo: tentava abafar os clamores do espírito tentando atender aos insaciáveis apelos do corpo. Daí a tal busca pela fusão, pela supressão dos limites.

Voltando à missa de domingo: o padre comentou alegremente minha persistência. Eu disse que devagarzinho estava tentando me reaproximar da Igreja. Ele respondeu que o importante era me aproximar de Deus! Hoje, se tentasse justificar minha adesão intelectualmente, confesso que não resistiria às primeiras interpelações. Quando venho à Igreja, sou tomado pelo poder dos ritos, pela experiência mística da missa.

A idéia de promovermos uma pescaria no discurso oficial da Igreja atrás de brechas ou talvez de deslizes que justifiquem ou autorizem a participação dos gays pode ser interessante e útil, mas francamente pouco me interessa. Nem mesmo parece me dizer respeito. A experiência libertadora, transformadora e radical do cristianismo passa longe da dicotomia corpo x espírito, ou da repressão sexual.

Ainda não me sinto “dentro” da Igreja, mas, do sentimento de exclusão que me aprisonou em uma parodoxal busca de prazer imediato, já me sinto livre.  E isto não quer dizer que tenha aberto mão da minha dimensão sensual homoerótica.”

Arnaldo, Rio de Janeiro.